Lula da Silva a assistir a um filme em 3D (Ueslei Marcelino/Reuters)
Sol em São Paulo: assim até parece mais fácil Lula aparecer daqui a
pouco. Nada de Avenida Paulista, arranha-céus, escritório chique. É uma
casa mais periférica, persiana de alumínio, azulejo florido. Ao deixar
Brasília, o ex-Presidente anunciou que queria dedicar-se aos problemas
de África e América Latina e esse é o foco deste Instituto Lula.
Há
algo de errado em chamar a Lula ex-Presidente. Talvez porque toda a
gente lhe chama "o Lula", e manda beijos como se fosse da família. A
repórter acaba de aterrar em São Paulo e toda a gente que soube ao que
vinha disse: "Dá um beijo no Lula."
Carinho não se deve, há ou
não há. No caso de Lula tornou-se quase uma aflição nacional quando os
médicos lhe diagnosticaram um tumor na garganta. À operação seguiram-se
três sessões de quimioterapia e 33 sessões de radioterapia. De um dia
para o outro foi-se aquele Pai Natal hirsuto: barriga, cabelo, barba. Só
sobrou um bigode. E quando uns fios de cabelo renasceram, a perna
esquerda ressentiu-se e Lula apareceu com bengala.
Entretanto,
em Portugal, a documentarista Graça Castanheira ia esperando. Lula seria
o último de 11 protagonistas na série O Tempo e o Modo, que está a ser
emitida pela RTP, e inclui nomes como Eduardo Galeano, Laurie Anderson,
Lucrecia Martel ou Gonçalo M. Tavares. Para formular o convite, a autora
do projecto construiu de propósito um site com uma carta pessoal. A
entrevista foi acordada entre Agosto e Outubro de 2011. Lula adoeceu,
passaram sete meses. Só no último fim-de-semana Graça recebeu luz verde
para dia e hora. Voou para São Paulo e aqui está, a acertar a câmara com
uma pequena equipa brasileira. Usando panos negros e painéis,
improvisou o cenário no anexo da casa, ao lado da piscina: uma mesa, uma
cadeira, um papel de parede azul com flores brancas. A entrevista vai
para o ar daqui a dois meses, está marcada para as 14h30 e o PÚBLICO
veio para a acompanhar.
Celso Marcondes, do Instituto Lula, amigo
do ex-Presidente há 30 anos, faz as vezes de anfitrião. O ex-Presidente
continua a morar em São Bernardo do Campo, cintura industrial paulista,
onde foi operário. Ontem apareceu em São Paulo, numa homenagem pública.
Às 14h30 ninguém sabe a que horas chegará. E "pode não ser hoje",
acautela Graça, após mais um telefonema.